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Ona Louise fala sobre a Drag Queen Story Hour e sobre ser uma drag queen

Artigo

Ona Louise é uma drag queen do Brooklyn, que também é cofundadora e diretora adjunta da Drag Queen Story Hour New York. Durante a semana WorldPride, ela e cinco de suas irmãs drag queens participaram da Drag Queen Story Hour na Macy's Herald Square, lendo histórias para crianças e suas famílias. Aqui, ela fala sobre essa experiência, sobre a Drag Queen Story Hour em geral, sobre sua jornada pessoal e seus pontos de vista.

O que é a Drag Queen Story Hour?
São drag queens que leem para crianças em escolas públicas, em bibliotecas e em livrarias. Basicamente, lemos em qualquer lugar onde possamos reunir crianças e drag queens. Lemos livros sobre inclusão, diversidade, amor e aceitação.

A Drag Queen Story Hour foi fundada em San Francisco pela escritora Michelle Tea. Eu fui a uma das primeiras leituras, na filial da Castro Library, e achei incrível. Eu mesma tinha apenas começado a ser drag e pensei: precisamos disto em Nova York. Eu me reuni com minha amiga Rachel Amy que trabalhava com a NYU para a Feminist Press, nós formamos uma equipe e fizemos a Drag Queen Story Hour em uma livraria. E a coisa decolou. Entramos no sistema público de bibliotecas e conseguimos muita divulgação na imprensa. E agora, nós simplesmente lemos para as crianças.

A finalidade da Story Hour é apresentar modelos de referência positivos do universo queer para as crianças. Todas as crianças precisam de modelos e as crianças LGBTQ+, especialmente, precisam de modelos queer positivos. Realmente há uma falta disso no mundo e eu penso que, muitas vezes, as pessoas queer e a cultura queer são vistas como “não familiares”.

Por que você participa pessoalmente da Story Hour?

Eu leio histórias na Story Hour porque, quando eu era criança, teria adorado ter um modelo queer positivo como eu sou. Eu acho que é importante mostrar às crianças as várias representações de gênero e diversidade, para que elas cresçam e sejam adultos tolerantes e amorosos.

Com que frequência você faz as Story Hours?

Para o mês do Orgulho LGBTQ+, fizemos leituras em vários locais por dia.

Como você escolhe os livros que lê para as crianças?

Na Drag Queen Story Hour, temos uma biblioteca de livros para escolher. Eles vão de clássicos como “Brown Bear, Brown Bear, What Do You See? (Urso marrom, urso marrom, o que você vê?)” ou “The Very Hungry Caterpillar (A lagarta muito faminta)” a outros livros que são mais modernos e falam sobre inclusão, amor e diversidade. Nós lemos “Julian is a Mermaid (Julian é uma sereia)” ou “Neither (Nem um, nem outro)” ou qualquer livro de Todd Parr. Nós temos nossos favoritos da Drag Queen Story Hour e é o que lemos.

O livro que eu mais gosto de ler é “Neither” de Airlie Anderson, que conta a história de um híbrido de coelho e pássaro que não se encaixa em seu mundo rígido, precisa ir procurar algum outro lugar para viver e escolhe sua família, o que, de certa forma, é a minha história pessoal.  

E você realizou uma Drag Queen Story Hour na Macy’s?

Sim, tivemos uma oportunidade incrível de fazer uma Drag Queen Story Hour na Macy’s Herald Square, a emblemática loja na 34th Street em Nova York. Foi realmente incrível divulgar a conscientização sobre nosso programa e ler para as crianças ali. Tínhamos seis drag queens, elas eram muito diversas e tinham muitos talentos diferentes. Foi tão incrível estar no palco juntas, alternando leitura de livros, dublagem de músicas e a dança do Hokey Pokey. Foi muito divertido e o público era incrível. Foi legal ver as famílias entrarem, permanecerem e se empolgarem com a proposta.  

E como foi a Drag Queen Story Hour na Macy’s?

oi incrível, realmente. Era um espaço tão bonito, as cores, o arco-íris e todas as crianças. Eu li “Neither” de Airlie Anderson. Depois de duas horas, eles simplesmente queriam mais e mais livros.
Eu vou à Macy’s para fazer as compras para a escola desde a minha infância, então, vendo todas aquelas crianças na minha frente, eu pensava, “nossa, há pouco tempo eu tinha a idade delas, estava aqui comprando roupas para o começo do ano escolar e agora estou no palco, uma drag queen real e completa, e vou ler livros para elas”.

O que teria significado para você, como criança, ter assistido uma Story Hour como esta?

Eu venho de uma pequena cidade na Georgia. Eu não tinha nenhum apoio e a vida toda me disseram “não”, para que eu não mostrasse minha feminilidade ou qualquer fluidez de gênero. Agora eu estou aqui, mudando os paradigmas e sou líder na comunidade queer, ajudando as crianças ao ler para elas e mostrar que está tudo bem se você é diferente e que elas podem ser elas mesmas e que elas não devem deixar que falem o contrário para elas. Quem sabe onde eu estaria hoje se eu tivesse o apoio de alguém, ou tivesse participado de uma Story Hour quando criança? Pois o que eu faço agora cresceu no solo da adversidade.   

Como normalmente o público reage na Drag Queen Story Hour?

As crianças adoram a Drag Queen Story Hour. Eles amam as encenações, os cabelos, a maquiagem, as bijuterias brilhantes. Eu acho que as crianças têm poucas oportunidades de assistir apresentações ao vivo. Todo mundo vive no seu telefone. Contar histórias para eles ao vivo, em tempo real, com seus pais ao seu lado, é muito forte. E todos realmente amam. É como ter uma Princesa Disney na vida real, na sua frente. Quando dublamos Moana ou qualquer música da Disney, elas ficam eufóricas.

Fale sobre o que você pensa desta frase: A beleza com a qual você nasceu é o tipo mais importante de beleza. Mas também é importante aprender como obter o melhor desta beleza e fazê-la brilhar.

Foi assim que eu me descobri sendo drag. Eu comecei a olhar para dentro e ao encontrar o amor próprio, eu consegui me expressar de verdade e mostrar minha expressão de gênero de uma maneira divertida e criativa.

Toda drag começa com a beleza interior. Você extrai tudo que está dentro de você e exterioriza. É realmente necessário entrar em contato com você mesma, saber quem você é e ter confiança verdadeira nisto, tirar de dentro e mostrar para o mundo.

Quote from Ona Louise, New York-based drag queen and co-founder of Drag Queen Story Hour
Ona Louise

Encontrar a beleza interior não é um percurso fácil. Mas eu acredito que você consegue chegar nisso sendo mais contemplativa e pensando mais sobre o valor que você traz para sua família e para sua comunidade e sobre o que você pode retribuir e demonstrar. A beleza que você descobre dessa maneira é o que você deve agradecer, amar e valorizar todos os dias.  

Onde você cresceu e como era sua vida quando era uma criança?

Eu cresci na Georgia em uma cidade razoavelmente pequena, e em um lar muito conservador, com gêneros definidos tradicionalmente. Eu evoluí muito de onde eu comecei no interior no sul dos EUA até encontrar minha família do coração e minha comunidade em Nova York. Eu mudei para Nova York com 21 anos e nunca olhei para trás. Mas crescer ouvindo que você não pode expressar sua feminilidade ou não pode se expressar de determinadas maneiras, foi traumatizante e eu precisei de muito tempo para superar isso e superar a autodepreciação e realmente entrar em uma realidade de amor próprio.

Eu era nerd de teatro, eu adorava o teatro. Eu queria ser figurinista ou um ator. Ou eu pensava que mudaria para o East Village e me tornaria um dos personagens de Rent. Eu tinha esta imagem que mudou quando eu me mudei para cá e percebi que Nova York é um pouco mais cara e violenta do que era nestes filmes mágicos. Mas eu tive uma jornada empolgante em Nova York, comecei trabalhando com moda e depois me tornei uma drag e, finalmente, a Drag Queen Story Hour.

Como você começou a ser uma drag queen?

Eu acho que há dois tipos de drag queens. Há as drag queens que dizem: “Você deveria ser drag. Aqui está a oportunidade.” Ou você é uma drag queen de Halloween. Eu definitivamente sou uma drag queen de Halloween. Eu me fantasiei de Lana Del Rey seis, sete anos atrás e penei, sim, é isto mesmo. E desde então, eu sou uma drag queen.

Qual é a importância da roupa, da maquiagem e dos cabelos?

Ser drag é autoexpressão. O que define é com certeza o que você veste, a sua maquiagem e os seus cabelos. Mas também depende de seu desempenho, sua presença e o que você está dando para as pessoas que estão assistindo você. O que eu quero dizer é que você pode montar um manequim e colocar em uma vitrine, mas não há uma alma ou uma pessoa ali.

Eu acho que a beleza do gênero é que ele é fluido e pode mudar de maneira regular. Esta roupa, a maquiagem e os cabelos saem e eu sou uma pessoa totalmente diferente, mas eu ainda posso me sentir da mesma maneira. Só porque estou me apresentando de uma maneira diferente, não significa que sou uma pessoa diferente.   

E como você cria a confiança?

Para mim, a confiança vem de se respeitar e ter amor próprio. Para ser drag, você precisa olhar no espelho e dizer, “nossa esta é uma pessoa bonita”. Assim, você sai pela porta e se sente confiante, porque você tem certeza de você mesma e você se ama.

Fale sobre a sensação de empoderamento, o que você sente sendo você no palco em uma Drag Queen Story Hour?  

Eu amo poder criar esta personagem e o público se conecta, talvez não com a imagem total, mas pelo menos com alguma coisa que você faz, seu penteado, sua roupa, sua escolha de músicas ou seu repertório.

A Drag Queen Story Hour é realmente poderosa, porque eu posso estar em frente a um grupo de crianças e eu posso dublar Julie Andrews, ler livros, jogar e divulgar cultura e amor. Isto realmente é poderoso, mais do que se apresentar em um clube noturno, que também é incrível. É muito poderoso pela retribuição a uma comunidade e para que as crianças sejam expostas a apresentações ao vivo, teatro e leitura de livros e que tenham um exemplo queer positivo. Este é o meu palco.

Mas Nova York também é meu palco e todas as vezes que eu saio de casa, como drag ou não, todo mundo está observando. Todos somos vitrines e espelhos uns para os outros.

O que você quer que as pessoas saibam sobre as drag queens? 

Para mim, drag é uma forma de arte, e arte é uma forma de autoexpressão e deve ser vista como tal. Um dos conceitos equivocados é que drag queens são um entretenimento para adultos somente. Isso é o fundamento da cultura drag, mas quando tiramos as drag queens dos clubes noturnos e trazemos para as crianças e para as comunidades durante o dia, somos líderes da comunidade queer.

Drag é empoderamento para uma causa ou algo em que você acredita. Drag é como uma armadura na forma de uma personagem que você pode vestir e então defender e falar em nome de pessoas que talvez não tenham coragem ou voz para fazer isto. Você é como uma usina de força.

Você falou sobre um conceito equivocado. Qual é o maior conceito equivocado sobre você, como drag queen?

Que é possível me colocar em uma caixa. Eu acho que nos dias de hoje, com a tecnologia e as mídias sociais, todos queremos estar nessa caixa 4 x 4. Mas como drag eu saio da caixa todos os dias e posso ser muitas coisas. Eu posso ler para crianças em uma escola ou biblioteca públicas, ou na Macy’s. Eu também posso ser o Jonathan [his birth name.] Eu posso me apresentar para o entretenimento de adultos. Eu posso fazer muitas coisas diferentes.

Qual é a parte difícil de ser uma drag queen?

Um dos aspectos mais difíceis das drags é o aspecto físico, o esforço físico de andar por aí de salto alto não é sempre muito divertido.

E ler para crianças na biblioteca às 11 da manhã é muito diferente de se apresentar para adultos às 11 da noite em um bar escuro. É um público diferente e as crianças não entendem sutilezas da mesma maneira que os adultos entendem. Você precisa dar vida à um conto de fadas para elas. Portanto, ter isto em mente e fazer aflorar a sua criança interior é importante para se apresentar.

Se apresentar como mulher ou como drag queen, traz algumas inseguranças adicionais para mim, de certa forma. Me lembra o quanto ainda há misoginia no mundo. Quando você está como drag, está sendo julgada como mulher e pode absorver essas inseguranças dos julgamentos que as pessoas fazem de você. Isto é difícil e eu só faço isso uma parte do tempo, então deve ser muito difícil para quem está lá assim, todos os dias.  

O que motiva você a brincar com o gênero?

O que acontece quando você brinca é que você não pensa nisso. Você brinca ao telefone. Você brinca na vida. Não é trabalho. Para mim, eu nunca pensei em gênero como algo com que eu estou brincando. É como, isto é quem eu sou e é assim que eu me expresso quando estou como drag ou não. Quando não estou como drag queen eu ainda uso, algumas vezes, roupas femininas e maquiagem. É a minha verdade, simplesmente. É quem eu sou normalmente, o tempo todo. Eu sou a favor de qualquer coisa que desafie o patriarcado. Eu acho que é realmente poderoso colocar a feminilidade no mesmo nível que a masculinidade e desafiar isto para as pessoas que estão receosas e assustadas.   

Eu acho que o gênero é uma construção que a sociedade criou para colocar alguma ordem, seja lá o que isso significa. É fabricado. Nós criamos estas caixas muito rígidas que dizem que podemos e não podemos fazer certas coisas, e isto pode ser muito prejudicial, para muitas pessoas. Foi prejudicial para mim quando me diziam que eu não podia me expressar de determinada maneira, ou cantar, dançar, dramatizar. Dar espaço às crianças, especialmente com a Drag Queen Story Hour, faz elas perceberem que todo o guarda-roupa de fantasias está aberto para você, que é possível usar todos os lápis de cores da caixa para pintar.

Descreva a sua persona drag.

Minha persona drag é Ona Louise, que também é o nome de minha mãe. Ona Louise gosta de luvas compridas, muitas plumas. Ela está pronta para ser anfitriã de uma festa com coquetel. Ela é como uma tia doida e divertida dos anos 1960 que deixa você ficar acordado até tarde e comer pizza no sofá-cama.

Eu tiro minha persona e meu visual de coisas que me inspiravam quando criança. Eu acho que é por isso que eu amo fazer a Drag Queen Story, porque eu me inspiro em coisas que, como uma pessoa queer jovem, eu vi na TV, ou ao vivo e pensei: nossa, isto é incrível: minha mãe, minha avó que usavam muitas perucas nos anos 1960, Endora do seriado A Feiticeira, fotografias de Slim Aarons, todas essas imagens de festas do final dos anos 1960, Mrs Robinson, Barbara Streisand.

Usar estas referências para materializar minha persona drag é uma maneira legal de romantizar e mostrar respeito por pessoas de meu passado com quem eu talvez não consiga ter relacionamentos próximos e saudáveis. Eu posso me conectar com elas em uma identificação externa, por meio de sua aparência e sentimentos. Eu sinto que estou homenageando meus ancestrais de certa maneira, se estou conservando o que eles exteriorizam fisicamente. Eram ícones queer para mim, e nem sabiam disto.    

Quando eu me apresentei na Drag Queen Story Hour na Macy’s, espero que alguma das crianças presentes tenha me visto como inspiração, ou como uma personagem fantástica e extravagante.

Quanto tempo leva para você se vestir como drag?

Eu preciso de duas a três horas para me vestir totalmente como drag queen. Você precisa calcular o tempo para corrigir qualquer erro no processo e o trânsito de Nova York.

Qual é a sua mensagem principal?

Minha mensagem principal neste momento, aos 30 anos, é:  Desligue-se de tudo e escute o que você realmente precisa e quer para você mesmo, não o que as outras pessoas estão dizendo, ou o que pode ser um curativo para alguma coisa específica, mas sim o que realmente faz você feliz e o que o seu eu verdadeiro está dizendo que você precisa em sua vida agora. Então, ouça e responda.

Em geral, com a WorldPride acontecendo, é realmente interessante ver quanta visibilidade queer há no mundo agora. Quando eu estava crescendo, não havia telefones celulares, internet ou YouTube; e ver esses jovens agora com acesso a um mundo inteiro na ponta dos dedos é espantoso. Eu estou ansiosa para ver o que a próxima geração vai trazer para nós.


Siga Drag Queen Story Hour e Ona Louise no Instagram: @dragqueenstoryhour @ona.louise

Esta entrevista foi editada para brevidade e clareza.